segunda-feira, 5 de outubro de 2009

É assim?

É assim?
De cores fortes.
E a cabeça baixa.
Enclausurada.
A liberdade.
O fogo.
O natural artificializado.
Uma lágrima,
o horizonte que se perde.


*Quadro de Matisse.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sobre o Amor

Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a idéia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma coisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.


Trecho de Sobre o amor, do livro A estranha vida banal.
Ferreira Gullar

domingo, 7 de junho de 2009


The love embrace of the universe - Frida Kahlo, 1949

sábado, 30 de maio de 2009



A calma não segue o silêncio.
O silêncio é o mais íntimo dos tormentos;
Torna estrondoso um sussuro;
Inaldível o falso;
Alucina o inaudível.
O caos
é mudo.



*Imagem do filme Persona, Ingmar Bergman.

domingo, 24 de maio de 2009

Para abrir o blog, um texto que escrevi em 17/11/06.

“Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar”*

Saudade é a dor deixada pela felicidade. Da tranqüilidade e inocência da infância. De momentos alegres passados. De pessoas amadas que estão longe. De sentimentos desfeitos. Daquele abraço, daquele beijo, daquele olhar. Das conversas. Do silêncio, principalmente do silêncio. Do suspiro. Do sorriso. Da lágrima. Da gargalhada. Do grito. Do toque. Da pele. Do cheiro. De cidades por onde passamos. Daquele dia chuvoso. Do sol naquele dia. Da lua refletida no mar e da areia em nosso corpo. Do frio daquele dia, do calor também. Do apelido de infância, do apelido secreto. Da sensação que aquela música trazia.

A saudade nos faz pensar no quanto poderíamos ter feito para viver melhor tudo, com a esperança de tudo ter sido infinito. Quando a sentimos é porque sabemos que algo se foi e desejamos profundamente que voltasse. É o sentimento mais legítimo do fim, quando percebemos não viver mais o que gostaríamos de estar vivendo.

“Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus”*


* Trechos de Pedaço de mim – Chico Buarque.